Pernilongos e Violência
Maricell


Por duas noites seguidas um pernilongo, decidido a perturbar meu sono, ficou a zumbir em meu ouvido, conseguindo atingir seu objetivo, ou seja, tirar-me o sono e sugar meu sangue. Parece-me que o tal inseto sabe de minha alergia a qualquer inseticida e transformou meu quarto em sua morada e meus ouvidos em instrumento de captação de sua irritante melodia. 
 

Noite passada, após uma sessão interminável de picadas e zumbidos, cansada de dar tapas inúteis em minhas próprias orelhas, resolvi mudar de tática. Decidi ignorar o inseto, tentar concentrar-me no brilho das estrelas que moram nas paredes e no teto de meu quarto, fazendo com que a mim pareça estar a ver o próprio céu e seus encantos. Coloquei uma melodia suave, relaxei meus sentidos voltando-me tão somente para essas duas coisas. Não sei a que horas dormi, mas dormi, acordando hoje por volta de onze horas da manhã, com muitas picadas mas com o corpo relaxado por boas horas de sono. Mas algo "zumbia" em minha mente.

 
Enquanto preparava o almoço, pensei no que havia feito noite passada ao ignorar o pernilongo e concentrar-me em outras coisas mais agradáveis ao corpo e à mente e cheguei à conclusão que é exatamente isso que maioria de nós faz em relação a muito do que acontece na vida. Tudo aquilo que pode perturbar a nossa paz e tranquilidade passamos a ignorar, dirigimos o rumo de nossos barcos para portos mais tranquilos, fazemos de conta que não existem. Concentramo-nos nas belezas da vida para não vermos a fome, a miséria, a violência, o ódio, a dor. Pregamos a paz para calar nossas consciências que nos cobram atitudes frente o violentar cada vez maior do homem pelo próprio homem. Falamos do amor e da amizade que deve existir entre todos quando sabemos que tal atitude é algo que somente os seres totalmente evoluídos como Cristo, Ghandi, Buda e outros poucos, podem conseguir. Somos seres expulsos do paraíso e como tal devemos nos aceitar, sujeitos a erros, muito embora sempre em busca da perfeição.

 

Mas não somos perfeitos. A história ( ou a estória como diz Rubem Alves) bíblica nos fala de Cristo expulsando os vendilhões do templo. Ora, que é isso senão um ato de rebelar-se contra algo que se acredita errado? Cristo não foi um ser passivo, muito pelo contrário. Perdoou muitas vezes mas também puniu quem devia ser punido, veja-se o caso de Judas. Então porque nós, humanos que somos, temos que suportar quietamente o zumbir e picadas de pernilongos e fazer de conta que eles inexistem em nosso universo? Por que devemos aceitar todo tipo de violência simplesmente porque uma alergia nos impede que usemos o inseticida contra tal? Muitas vezes, à despeito de toda alergia, faz-se necessário usá-lo para que alguns pernilongos nos permitam momentos de paz. Ou será necessário que tenhamos uma dengue hemorrágica para nos darmos conta dos males que um pernilongo pode nos causar?

 

Não prego aqui a violência a combater violência, não sou do "olho por olho" mas é preciso que tomemos atitudes coerentes se queremos de verdade um mundo de paz onde não seja necessário o troar de canhões e a explosão de bombas para abafar ruídos de pernilongos. A não ser que optemos por passar nossas vidas a estapear nossos próprios ouvidos.

maricell@maricell.com.br


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